terça-feira, 17 de março de 2015

La mort *

   Je suis allé un jour hanter le cimetière,
J´ai parlé longuement à feu mon ami Pierre,
Ses propos m´ont paru sortir d´une autre bouche:
Hélas, il n´avait plus sa voix rude et farouche.

   Il m´a dit qu´il était dans un calme profond
Et que rien ne troublait son sommeil Léthargique,
Visitant sans frayeurs des abîmes sans fond,
On m´a dit que la mort n´avait rien de tragique.

   Pour moi, j´aime bien mieux la vie et ses douleurs,
J´aime écouter mon coeur battre comme un tambour;
Un sommeil inconscient est pour moi sans douceurs,
Plutôt lutter vivant que dormir pour toujours.

                                                          Kateb Yassine 

* Retirado da coletânea de poemas Oeuvres de M. Kateb Yassine (1945), dedicada a André Walter. Aos 15 anos, Kateb era estudante em Setif e ainda não havia vivenciado o 8 de maio de 1945. (Actualité de Kateb Yacine, Itinéraires et Contacts de Cultures. Volume 17, 1er semestre 1993). 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Versão italiana d' O círculo de represálias

Epochè (2004)
trad, de Piero Ferrero e Egi Volterrani
prefácio de Francesca Corrao

quinta-feira, 12 de março de 2015

Encontro Frantz Fanon, Kateb Yacine e Édouard Glissant

Dias 13, 14 e 15 de março de 2015 
na Maison de l´Amérique Latine e no New Morning, Paris 





Dia 13/03: "Fanon, Kateb, Glissant: de la décolonisation aux indépendances"
Dia 14/03: "Penser le monde aujourd´hui, avec Frantz Fanon, Kateb Yacine, Édouard Glissant"
Dia 15/03: "Paroles poétiques, paroles politiques"

Veja o programa e mais informações no site do Institut du Tout-Monde: clique aqui.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A Poesia Luso-Árabe


O Meu Coração é Árabe - A Poesia Luso-Árabe
Assírio & Alvim, 1987

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A eterna sacrificada, a mulher

"A eterna sacrificada, a mulher, desde seu nascimento, é acolhida sem alegria. Quando há uma sucessão de meninas (...), esse nascimento vira uma maldição. Até o casamento, é uma bomba-relógio que coloca em perigo a honra patriarcal. Ela, então, ficará reclusa, vivendo uma vida secreta no mundo subterrâneo das mulheres. Não se escuta a voz das mulheres. Às vezes um murmúrio. Quase sempre um silêncio. Um silêncio tempestuoso. Pois esse silêncio engendra o dom da palavra . (...)"

===


"Éternelle sacrifiée, la femme dès sa naissance est accueillie sans joie. Quand les filles se succèdent (…), cette naissance devient une malédiction. Jusqu'à son mariage, c'est une bombe à retardement qui met en danger l'honneur patriarcal. Elle sera donc recluse et vivra une vie secrète dans le monde souterrain des femmes. On n'entend pas la voix des femmes. C'est à peine un murmure. Le plus souvent c'est le silence. Un silence orageux. Car ce silence engendre le don de la parole. (...)"

Kateb Yacine
Traduzido por Melissa Scanhola
"J'ai vu l'étoile qui n'a brillé qu'une fois", 
Le Monde, Paris, 4 de Abril, 1984.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Concerning Violence de Göran Hugo Olsson (novo clip)

Algo me diz que este vai ser o documentário do ano. Quando estrear em Portugal não serão sequer precisas legendas.



Mais informação aqui.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

تقوى‎

"A crença na singularidade de Deus é chamada tawhid, que significa não apenas a unidade divina mas também o acto pessoal de afirmar essa unidade. A palavra que significa devoção (taqwa) possui também conotações de força e concessão de poder. (...) A palavra que designa a fé, iman, está estreitamente relacionada com as palavras segurança e confiança. (...)"

Jamal Elias
O Islamismo, Edições 70 (2010)

Por onde se derramou

“Quantos, entre a gente instruída da nossa terra, ignoram que Coimbra, Lisboa, Santarém, Évora, Beja, Alcácer, Mértola, Silves, Faro foram centros notáveis de civilização árabe peninsular e cenário de relevantes acontecimentos políticos. (...)"

"Fala-se no caminho para Santiago, desbravado mais intensamente após a chegada dos cluniacenses e de Raimundo e Henrique. Mas havia também um caminho para Meca de que ninguém fala. E bem mais antigo. E bem mais grávido de presente e de futuro. Por onde se derramou o caudal das técnicas agrícolas e artesanais... (...)"


António Borges Coelho
Portugal na Espanha Árabe, Editorial Caminho (2008)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

"Concerning Violence", de Göran Hugo Olsson


O cineasta Göran Hugo Olsson estreia nos festivais de cinema seu mais novo documentário, Concerning Violence. Olsson já havia filmado The Black Power Mixtape (2011), documentário que reúne imagens sobre a evolução do movimento Black Power nos Estados Unidos. 
Concerning Violence denuncia o colonialismo por meio de imagens do cotidiano no continente africano e das guerras de independência africana dos anos 1960 e 1970. A narração é feita pela cantora Lauryn Hill (mais informações aqui). O documentário se destaca, também, por ser fundamentado na obra-prima de Frantz Fanon, Os condenados da terra (ler artigo aqui). 

Fanon nasceu na Martinica em 1925. Foi filósofo, psiquiatra e militante político. Naturalizado argelino, trabalhou no hospital psiquiátrico de Blida. Abandonou a profissão por se encontrar num impasse em relação ao tratamento da esquizofrenia engendrada pela colonização: "Se a psiquiatria é uma técnica que propõe ao homem não mais ser estrangeiro em seu próprio meio, é meu dever afirmar que o árabe, permanentemente alienado em seu próprio país, vive num estado de despersonalização absoluta". Assim, passou a participar ativamente da luta de independência argelina. Os condenados da terra foi seu último ensaio, escrito às pressas um ano antes de falecer de leucemia, em 1961.   


segunda-feira, 21 de julho de 2014

domingo, 13 de julho de 2014

Kateb Yacine na América


Três músicos, Picasso


Quando fala de sua viagem aos Estados Unidos, em entrevista concedida a Benamar Mediene, Kateb Yacine menciona o encontro entre a América e a África por meio do jazz:  

M.B. - E as noites americanas?
K.Y. - Passei minhas mais lindas noites com alguns grupos de jazz. Pude ver brancos e negros passarem a noite inteira juntos no clima mais fraterno. O jazz americano é tão envolvente que as pessoas afrouxam as rédeas. Vemos esses homens engravatados, que chegaram sérios e conformistas, desmancharem-se pouco a pouco como neve sob o sol e jogarem fora a máscara. A gente sente quebrar as carapaças, as barreiras sociais e raciais. Em momentos como esse, vi o quanto a África está implicada no que a América tem de mais profundo, assim como encontramos um poeta negro chamado Pushkin na raiz mais pura da língua russa. O espírito africano que se expressa pelo jazz comove os brancos. Ele contribui para a união de um povo americano voltado para o futuro, capaz de compreender que a África também aspira à união. Estamos no momento em que a Europa suprime suas fronteiras nacionais, e o mundo inteiro tende a se unir em grandes conjuntos. Estamos na Era do cosmos para finalmente chegarmos à dimensão universal e à aplicação dos direitos do homem, sem distinção de raça ou religião.    
Cultures n.0, Argel, julho de 1988
Fonte: Kateb Yacine, le poète comme un boxeur:
entretiens 1958-1989, Éditions du Seuil, 1994. (trad. livre)



.
Na biografia de Kateb, Benamar Mediene discorre sobre as impressões do amigo:

"Os americanos têm uma capacidade incomum de esquecimento. Sua memória funciona como uma esponja. Depois de tudo reter, ela é espremida para recomeçar a absorver. Como explicar que um genocídio datando de menos de um século só seja relembrado através de um filme, onde a vítima é apresentada como sendo ela mesma o exemplo da barbárie?" 
Kateb Yacine, le coeur entre les dents
Paris: Éditions Laffont, 2006. (trad. livre)

Chamada para comunicação no Colóquio Internacional 
Études katebiennes: Une esthétique de la modernité et une épistémologie
27 e 28 de outubro de 2014

"Os romances de Kateb Yacine – Nedjma e Le Polygone étoilé – serão assunto do colóquio internacional, organizado pelo departamento de Letras e Língua francesa da Universidade de Guelma, nos dias 27 e 28 de outubro de 2014. Esses dois romances estão entre os textos mais vanguardistas da literatura argelina há quase 70 anos. Eles renovaram a estética do romance por meio da escrita fragmentária, que é sua marca inigualável nessa época. Ignorando deliberadamente o consumado, o fechado, o totalmente edificado, o romance de Kateb Yacine privilegiou aquilo que o sentido e a história têm de inacabado e a abertura aos possíveis."
Trad. livre. Ler mais aqui.
Mais informações no site da Universidade de Guelma.

domingo, 27 de abril de 2014

Kahina, a rainha berbere de Aurès


Em uma das versões da peça La Kahina ou Dihya, Kateb atribui os seguintes versos à fala da rainha berbere, antes de ser morta em combate:

Ils m´appellent Kahina, ils nous appellent berbères,
Comme les romains appelaient barbares
nos ancêtres.
Barbares, Berbères, c´est le même mot,
toujours le même
comme tous les envahisseurs, ils appellent
barbares
Les peuples qu´ils oppriment, tout en prétendant
les civiliser.
Ils nous appellent barbares, pendant qu´ils pilent
notre pays.

Les barbares sont les agresseurs.
Il n´y a pas de Kahina, pas de Berbère ici.
C´est nous dans ce pays qui combattons
la barbarie.
Adieu, marchand d´esclaves!
Je vous laisse l´histoire
Au coeur de mes enfants
Je vous laisse Amazigh
Au coeur de l´Algérie!



Os versos seguintes correspondem ao coro das meninas e dos camponeses que transportavam o corpo da rainha decapitada:

Afrique corps sans tête, Afrique,
Soleil couchant plonge-toi dans la nuit,
La longue nuit tragique
D´où sortira une Afrique...
Afrique corps sans tête
Tes enfants sortent de tes flancs
Aveugles dans la nuit
La longue nuit tragique
Où tout un continent
N´en a jamais fini de naître et de mourir...
Afrique corps sans tête
Où es-tu, tes enfants te cherchent
Tes enfants du soleil couchant
Tes enfants de la longue nuit
Tes enfants de la nuit tragique
Afrique, où est ta tête? 
Parce que c´est une femme, 
suivi de La Kahina ou Dihya, 
Saout Ennissa, La voix des femmes, 
Louise Michel et la Nouvelle-Calédonie, de Kateb Yacine. 
Editora Des femmes - Antoinette Fouque, 2004. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

On nous rend hommages

"On nous tue et on nous rend hommages."

Kateb Yacine

sábado, 5 de abril de 2014

Nedjma de Kateb Yacine dans le contexte des années 50


"La nouveauté majeure d'un texte comme Nedjma, en balayant le modèle descriptif hérité, était d'abord d'attirer l'attention sur le fait même de narrer, de produire un récit dans des normes de lisibilité surprenantes. Ce faisant, Nedjma pose l'existence d'une narration issue de l'espace culturel même dont elle se réclame. C'est ce que souligne la naïve introduction de l'éditeur, qui a ressenti le besoin de "naturaliser" en quelque sorte pour le lecteur français principal destinataire du roman en 1956, cette écriture surprenante. Et de façon fort révélatrice cette préface s'abrite derrière une différence supposée dans la conception du temps de la civilisation arabe par rapport à celle de la civilisation occidentale. C'est-à-dire qu'elle gomme l'étrangeté textuelle en la cachant derrière un exotisme de contenu censé l'excuser. Dans sa naïveté, cette préface au demeurant bien paternaliste montre d'abord que la provocation a réussi... (...)"

 Charles Bonn
Bruxelles, Revue de l'Institut de Sociologie.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O teatro político - magnífico pleonasmo!

"Fazer com que os argelinos escutem sua história", ou a dos outros povos, é também escrever uma contra-história: restabelecer a verdade contra a amnésia e a mentira, contra o ensino rotineiro ao qual as novas gerações se submetem passivamente, contra a confiscação da história pelos poderes políticos. "(...) O papel pedagógico do teatro é de peso, justamente porque é, antes de tudo, um meio de luta. A luta serve para apresentar os verdadeiros problemas", explica [Kateb]. Através desse ato pedagógico de revelar a história, ele restitui a virtude política do teatro, no sentido aristotélico do termo. E lhe atribui sua dimensão literária, precisamente, pois quando os defensores de um teatro exclusivamente "literário" alegam que o teatro político - magnífico pleonasmo! - estaria sujeito ao slogan, eles se esquecem que as peças ditas literárias com diálogo prosaico fizeram o teatro perder seu vigor dramático.


As mulheres no teatro de Kateb Yacine

Teatro político e literário, então, que inscreve a história, as histórias nacionais. (...) As mulheres são apresentadas no centro desse processo. Elas não são excluídas do texto histórico (...) são atrizes da história e de sua inscrição através de dois temas essenciais, a terra e a língua. Pascale Casanova mostrou que na obra de Kateb Yacine "as fundações literárias estão ligadas às fundações nacionais". É preciso acrescentar que essas fundações nacionais estão ligadas às fundações sociais e que as mulheres têm aí um lugar privilegiado: o primeiro.   

Tradução livre da apresentação de Zebeïda Chergui 
de Parce que c´est une femme, 
suivi de La Kahina ou Dihya, 
Saout Ennissa, La voix des femmes, 
Louise Michel et la Nouvelle-Calédonie, de Kateb Yacine. 
Editora Des femmes - Antoinette Fouque, 2004. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

De encontro à gueule du loup

Passar de uma língua à outra é possível, desde que não se perca o contato com o povo argelino e sua língua, o árabe falado. Não é o caso dos escritores que, por praticarem o francês, acabaram se distanciando da língua do povo. O árabe literário, que muitos não sabem, não traz o sal da vida encontrado na língua popular. Muitos escritores são desconectados dessa língua, dessa primeira fonte. É difícil retornarem. Eu mesmo só pude retornar no teatro.  

Entrevista com Jacques Alessandra para o jornal Travail théâtral 
(Paris, 1978)
publicada em Le poète comme un boxeur, 
entretiens 1958-1989 (tradução livre).