Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

Albert Camus e a guerra de independência

No contexto da Guerra da Argélia (1954-1962), Albert Camus foi um dos escritores mais criticados pelos próprios compatriotas. Filho de pieds-noirs, foi condescendente com uma Argélia francesa pelo fim da guerra de independência. Essa posição contraria a Frente de Libertação Nacional (FLN), que àquela altura reivindicava uma Argélia árabe-muçulmana, assim como faziam muitos escritores magrebinos engajados na luta pela independência. Também foi mal-interpretado ao declarar a seguinte frase : “acredito na justiça, mas prefiro minha mãe à justiça”, protestando contra o radicalismo de grupos guerrilheiros e a onda de terrorismo que assolava as ruas de Argel. 
Kateb Yacine criticou a posição atenuada de Camus frente à situação da nação argelina e as injustiças na colônia. Quando Camus é premiado com o Nobel de Literatura (1957), recebe uma carta de Kateb.

Sábado, 4 de Maio de 2013

Algerian Chronicles

Algerian Chronicles, de Albert Camus, Introd. de Alice Kaplan
e tradução de Arthur Goldhammer
Harvard University Press (2013)
Mais de 50 anos depois da independência da Argélia são agora publicadas em inglês as crónicas de Albert Camus escritas durante o período colonial. Ao contrário de Kateb Yacine, Camus não apoiou a independência da Argélia. Tornaram-se "irmãos inimigos".

"Algerian authors and friends, such as Mouloud Feraoun (1913-'62) and Kateb Yacine (1929-'89), criticized Camus for his paternal social depiction of the colonized (notably his failure to recognize or include them adequately and accurately in his writing), as well as his inability to fully comprehend their insistent political aspirations. Yet, situated in particularly difficult and demanding historical and personal conditions, Camus found himself isolated and alienated by colonialists and by the colonized. (...)"
Alice Kaplan
(da introdução)

Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Uma pulga sentimental


Parti com os panfletos.
Enterrei-os na ribeira.
Tracei sobre a areia um plano...
Um plano de manifestação futura.
Deem-me essa ribeira, e bater-me-ei.
Bater-me-ei com areia e água.
Com água fresca, com areia quente. Bater-me-ei.
Estava decidido. Portanto via longe. Muito longe.
Via um camponês fincado como uma catapulta.
Chamei-o, mas ele não veio. Fez-me sinal.
Fez-me sinal de que estava em guerra.
Em guerra com seu estômago. Toda a gente sabe...
Toda a gente sabe que um camponês não tem espírito.
Um camponês é só estômago. Uma catapulta.
Eu cá era estudante. Era uma pulga.
Uma pulga sentimental... As flores dos choupos...
As flores dos choupos explodiam em penugem sedosa.
Eu cá estava em guerra. Divertia o camponês.
Queria que ele esquecesse a sua fome. Eu fingia de doido. Fingia de doido diante do meu pai o camponês. Eu bombardeava a lua na ribeira.
Kateb Yacine
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.48,49

Mas vós começais pelo fim


“O recolhimento e a sabedoria, isso é bom para os valentes que já combateram. Levantai-vos! Voltai aos vossos postos, fazei a oração no trabalho. Parai as máquinas do mundo, se temeis uma explosão; deixai de comer e de dormir durante uns tempos, agarrai nos vossos filhos pela mão, e fazei uma boa greve-oração, até que vossos mais modestos desejos sejam satisfeitos. Se tiverdes medo dos polícias, fazei como os ursos, uma sesta sazonal, com raízes e rapé para aguentardes; eu compreendo-vos, meus irmãos, é a vossa vez de me compreenderdes; agi como se Deus estivesse entre nós, como se fosse um desempregado ou um vendedor de jornais; manifestai, então, a vossa oposição seriamente e sem remorsos; e quando os senhores deste mundo virem os seus administrados definharem em massa, com Deus nas suas fileiras, talvez obtenhais justiça; sim, sim, compreendo-vos, aprovo a vossa presença na mesquita; não se pode sonhar junto das megeras e dos miúdos, não se pode ser sublime no domicílio conjugal, tem-se necessidade de se prostrar com desconhecidos, de passar desapercebido na solidão colectiva do templo; mas vós começais pelo fim; ainda mal sabeis andar e eis-vos ajoelhados; nem infância nem adolescência, vem imediatamente o casamento, a caserna, o sermão na mesquita, a garagem da morte lenta.”
Kateb Yacine
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.37

Nedjma é o espinho


“[...]o naufrágio aproximava-me da amante tanto quando dela me afastava; é uma mulher perpetuamente em fuga, para lá das paralisias de Nedjma já perversa, já embebida das minhas forças, turva como uma fonte onde tenho de vomitar depois de ter bebido; da amante que me espera, Nedjma é a forma sensível, o espinho, a carne, o caroço, mas não a alma, não a unidade viva onde poderia confundir-me sem receio de dissolução...”
Kateb Yacine
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.214

Domingo, 28 de Abril de 2013

O turbilhão do sangue não permitia que nenhuma ideia se fixasse

"Lakhdar acendeu um cigarro, e queimou o retrato; o seu silêncio acabou por precipitar Nedjma, corada e sinistra, para fora do quarto. Quando se lançou em sua perseguição, ouvira-a já abrir a porta da sala onde, colando-se contra a porta, apenas sentiu o arfar insistente do vento. Deu a volta à chave por fora e voltou para o quarto vazio.
Fechados Nedjma e Murad fechados, assobiava o vento em ligeiras rajadas, fustigando a luz eléctrica na atmosfera grávida, extraviando as suas odoríferas imensidões, embatendo contra as portadas, dispersando a floresta em chuvosa resina e o mar em turbilhões decapitados, em dentadas na memória. Lakhdar poisou a chave sobre um livro. «O catecismo do amor». O vento varrera o salão, proscrevera toda a visão, e o turbilhão do sangue não permitia que nenhuma ideia se fixasse, como se a cidade, graças à tempestade, fosse libertada das folhas mortas, como se a própria Nedjma volteasse algures, bruscamente varrida. (...)"  

Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.213

A impressão de um reino

"A primeira sala de estar que conhece: sala de cortinados escarlates, cobres que teriam o seu lugar na cozinha, fotografias emolduradas: salão, museu, toucador, casino? As cadeiras vomitaram discretas poeiras sobre almofadas verdes; o lustre coberto de lâmpadas dá, pela tentação de as acender todas, a impressão de um reino indevido. (...)"

Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.208

Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

"O polígono estrelado" (1966)


"[...] meu pai de repente tomou a irrevogável decisão de me enfiar, sem mais tardar, na “boca do lobo”, quer dizer, na escola francesa. Ele o fazia com o coração apertado:
_ Deixe o árabe por agora. Não quero que, assim como eu, você esteja sentado entre duas cadeiras. Não, se depender de minha vontade, você nunca será uma vítima da Madraçal[1]. Em tempos normais, eu poderia ser seu próprio professor, e sua mãe faria o resto. Mas aonde uma educação como essa o levaria? A língua francesa domina; é preciso dominá-la, e deixar para trás tudo o que lhe inculcamos na sua tenra infância. Mas, uma vez mestre na língua francesa, você poderá sem medo voltar conosco ao seu ponto de partida.
Era mais ou menos assim o discurso paterno.
Será que ele mesmo acreditava?
Minha mãe suspirava; e quando eu mergulhava no novo estudo, fazendo, sozinho, minhas lições, eu a via perambular, como uma alma penada. Adeus ao nosso teatro íntimo e infantil, adeus ao complô diário tramado contra meu pai, para replicar, em versos, contra seus arroubos satíricos... e o drama se formava.
[...]
Minha mãe era muito perspicaz para não se comover com a infidelidade que eu lhe fazia. E ainda a vejo, toda aborrecida, arrancando-me dos livros – você vai ficar doente! – e uma noite com a voz cândida, mas não sem tristeza, dizendo-me: “Já que não devo mais o distrair de seu outro mundo, ensina-me então a língua francesa...” Assim se fecha a armadilha dos Tempos Modernos sobre minhas frágeis raízes, e não me esqueço do meu estúpido orgulho no dia em que minha mãe, com um jornal francês na mão, pôs-se diante de minha mesa de trabalho, longe como nunca, pálida e silenciosa, como se a pequena mão do cruel aluno lhe fizesse o dever, uma vez que é seu filho, de consentir a camisa do silêncio, e mesmo de segui-lo até o fim de seu esforço e solidão – na boca do lobo.
Eu nunca deixei, mesmo nos dias de sucesso com a professora, de sentir no fundo de mim essa segunda ruptura do cordão umbilical, esse exílio interior que só aproximava o aluno de sua mãe para desarraigá-los, um pouco por vez, sob o murmúrio do sangue, do gemido reprovador de uma língua banida, secretamente, num só acordo, tão logo rompido e concluído... Assim, perdi tudo ao mesmo tempo, minha mãe e minha linguagem, os únicos tesouros inalienáveis – e, no entanto, alienados!"

Kateb Yacine
Le polygone étoiléÉditions du Seuil, 1997 (p.180-182) - tradução livre.



[1] Escola muçulmana.

Domingo, 7 de Abril de 2013

Círculo de represálias

Madrid: Editorial Cuadernos para el Diálogo, 1974
Tradução de Carlos Rodríguez Sanz

Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

"Que graça! (...) Vamos fazer-lhe perder o paraíso antes de morrer."

"No começo da orgia, a criada estava na cozinha inundada de sol; saiu de lá ao crepúsculo, para se opor à pilhagem. Imediatamente agarrada, foi arrastada para o quarto nupcial. A mulher do cobrador dos Correios pegou na garrafa de rum meio vazia e enfiou-a pela boca da criada. «Que graça! rejubilava o oficial de diligências. Vamos fazer-lhe perder o paraíso antes de morrer.» (...)"
Kateb Yacine 
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.24

Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

Pathogenic effects of colonial and psychiatric violence

"Algerian novelist Kateb Yacine was at the center of the Algerian revolution as a teenager. As an upper class Algerian with both Qur’anic and French colonial education he embodied the cultural quandary of the évolué: native Arabs afforded the best of the mission civilisatrice and caught between two cultures. His mother also suffered from serious mental illness and was repeatedly hospitalized for years, including an extended stay at Blida psychiatric hospital. In various fictional guises, she becomes a recurring trope in Yacine’s work of the pathogenic effects of colonial and psychiatric violence. (...)"
Vernon A. Rosario 
University of California, Los Angeles
H-France Review Vol. 8 (January 2008), No. 7

Segunda-feira, 1 de Abril de 2013

Le cadavre encerclé

"Com Le cadavre encerclé (1958), Kateb Yacine foi o primeiro dramaturgo de língua francesa a tomar a guerra da Argélia como tema.
Do lado francês, apenas Genet com Os Biombos abordou o assunto. Houve também alguns sketchs satíricos, como Les séquestrés d’Altona, de Sartre, que pretendia abordar indiretamente o problema da tortura na Argélia. (...)
Luís Cláudio Machado
(Uniso - Universidade de Sorocaba)

"Le cas de Kateb Yacine" | Jacqueline Arnaud

Publisud (1986)

Quinta-feira, 28 de Março de 2013

O delírio verbal de Kateb Yacine


"Perante a estagnação da literatura árabe, a literatura argelina continua a produzir obras diversificadas. Não se pode portanto falar de uma escola argelina, mas de um grupo de indivíduos unidos por uma mesma componente: a Argélia. (...) Em face desta geração que nasceu, literariamente  em 1945, existe a geração de 1956, da qual Kateb Yacine aparece como único e o mais prodigioso representante. Numa prosa poetisada até ao delírio verbal, a obra de Kateb Yacine é um vaivém entre o mito e o real.* (...)"

Rachid Boudjedra 
 A vida contemporânea na Argélia na época contemporânea 
 Livros do Brasil (1972) pp. 152-153
[*Maurice Nadeau em France-Observateur, 1956]

Poesia de expressão árabe

"Pelos anos de 1930, o movimento reformista dos ulemás vai auxiliar a abertura de uma poesia voltada essencialmente em defesa do islamismo e da integridade da personalidade argelina  Um dos mais ilustres arautos deste movimento foi o xeque Abdel Hamid ben Badis. (...) 
[A literatura argelina] permanece também ligada a uma forma demasiado clássica que a sufoca e a impede de se universalizar. Contudo, após alguns anos, todo um movimento de jovens poetas (...) tenta fazer sair a poesia argelina de expressão árabe da sua golilha esterilizante. (...)"

Rachid Boudjedra 
 A vida contemporânea na Argélia na época contemporânea 
 Livros do Brasil (1972) p. 151

Em nome do alimento e do sal

"Na Argélia, não se ousa atraiçoar aquele com quem se compartilhou uma refeição, senão, usurpar-se-ia um contrato muito importante que é resumido na seguinte fórmula: Em nome do alimento e do sal!, pronunciada muito frequentemente durante uma refeição. (...)"

Rachid Boudjedra 
 A vida contemporânea na Argélia na época contemporânea 
 Livros do Brasil (1972) p. 78

Seroual, gandoura e kab'kab'

"As calças femininas são chamadas seroual. Com as calças, as mulheres usam boleros justos à cintura, com mangas muito largas e recortadas nos punhos. Entre os ricos, os boleros são muitas vezes bordados, de cetim ou seda de cor clara. Quando não usa calças, a mulher veste uma gandoura, espécie de vestido muito comprido e muito amplo cujas mangas são por vezes em tule, necessariamente chegada à cintura por um cinto de prata ou de coiro trabalhado. Nos pés, a argelina calça em casa os kab'kab', espécie de tamancos de madeira. O pé é sustentado por uma correia de coiro através da qual passa. (...)"

Rachid Boudjedra 
 A vida contemporânea na Argélia na época contemporânea 
 Livros do Brasil (1972) p. 72

Egoísmo masculino

Ó Profeta, diz às tuas mulheres, às tuas filhas e às mulheres dos 
crentes que se guardem nos seus véus. 
Será o meio mais seguro de serem respeitadas. (Corão, 33-59)


"A mulher argelina participa muito pouco no desenvolvimento económico do país e continua dependente do homem. Por este motivo, mantém-se um ser menor cuja abertura é essencialmente impedida pelo egoísmo masculino. (...)"

Rachid Boudjedra 
 A vida contemporânea na Argélia na época contemporânea 
 Livros do Brasil (1972) p. 65

Solidariedade de clã

"Na Argélia  o que chama mais a atenção, por ocasião da morte de uma pessoa, é o interesse que a comunidade inteira lhe devota. A este nível, a tragédia da morte é sentida, muito mais do que noutro ponto, como um atentado aos sentimentos de todo o meio social, devido a um certo poder das relações interfamiliares e intergrupais. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma forma de solidariedade de clã (...). 
Um provérbio do Sul argelino diz: Cada lágrima que cai por um morto, é para ele uma faísca no Inferno. Na realidade, a religião muçulmana proíbe que se chorem os mortos em demasia. (...)  Muitas vezes, em certas regiões da Argélia rural, há o costume de deixar a porta da casa aberta, para permitir a todos que o desejem - mesmo desconhecidos - compartilhar a dor da família e exprimir as suas condolências. (...)"

Rachid Boudjedra 
A vida contemporânea na Argélia na época contemporânea 
 Livros do Brasil (1972) p. 54

Fada benfazeja

"Para as crianças argelinas, os irmãos e as irmãs não nascem das couves. É uma fada benfazeja que as coloca na cama da mãe. Isto, diz a lenda. Na realidade, o nascimento de uma criança é considerado como um grande acontecimento nas famílias argelinas. Com esta finalidade, um certo número de ritos e de cerimónias são organizados em honra de recém-nascido e de sua mãe. (...)"

Rachid Boudjedra
A vida contemporânea na Argélia na época contemporânea 
Livros do Brasil (1972) p. 17

Acréscimo de nudez

"O eterno jogo de Nedjma é reduzir o vestido ao mínimo em poses acrobáticas de avestruz estimulada pela solidão; sobre uma tal pelagem, o vestido é um acréscimo de nudez, a feminilidade de Nedjma está algures (...)"

Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.70

Terça-feira, 26 de Março de 2013

Segunda-feira, 25 de Março de 2013

A Arte do "Zajal" | Estudo de Poética Árabe | Michel Sleiman


Michel Sleiman
Ateliê Editorial (2008)

Miasmas de hortelã e de lírio

"Os miasmas dos dias cada vez mais quentes de Junho persistem, apesar das lavagens a balde; mas são miasmas de hortelã e de lírio (...)"

Kateb Yacine 
Nedjma  Tricontinental Editora (1987) p.157

Assim vai um dos maiores livros da literatura árabe (e mundial...) nas nossas bibliotecas:



Cheio de luz no rosto

"As minhas lágrimas, tão grandes, encharcaram-me
os pés mais o tapete verde do mihrab,
sob o olhar benigno de Maulana
Kássimo Taybob, cheio de luz no rosto
e aura azul-celeste a envolver-lhe o corpo. (...)"

António Barahona
Raspar o Fundo da Gaveta e Enfunar uma Gávea 
Averno (2011), p.27

Sábado, 23 de Março de 2013

As mulheres na poesia árabe contemporânea


"This anthology was prepared to eradicate invisibility: to provide an introduction to Arab women poets, to make visible the works of a great number of Arab women poets who are virtually unknown to the West, to make visible how many Arab American women poets are marginalized within the American literary and ethnic scenes, and to demonstrate the wide diversity of Arab women's poetry..."

Nathalie Handal
(do prefácio)

Sexta-feira, 8 de Março de 2013

Algumas palavras berberes

Tafuyt - Sol
Oungaal - Preto
Issalman - Peixes
Alkhekh - Areia
Serwal - Calças
Adad - Dedo
Samhi - Perdão
Tadart - Casa
Drra - Milho
Afuus - Mão
Amnassf - Metade

Quarta-feira, 6 de Março de 2013

Metempsicose?

"Nedjma: não é ela a reencarnação de Eurídice trazida dos infernos por Orpheu, seu amante? Não ela a sua [de Kateb Yacine] metempsicose?"

Benamar Médiène
trad. por aqf